Sunday, June 11, 2006

"Olha, já não aguento mais. É só o que te digo. É tudo uma chatice." -- e eu ali, a ouvir, sem saber o que dizer, quando o avançado das horas já não me deixa responder aos seus desabafos com alguma coerência. Será que, se lhe disser que, o que me chateia de morte é a sua conversa, ela se chateia e se vai embora? Isso seria bom demais para ser verdade...e, provavelmente nem se ia embora e ainda acrescentava mais umas odes à sua elegia do quão infeliz é...mas que rica maneira de passar um sábado à noite, digo eu...a aturar tipas com os copos...ainda por cima nem é minha amiga, está com os meus amigos e nem sei bem porquê achou que eu tinha cara de confessora. O que me vale é o Nuno, que já me conhece de outros Carnavais, que vê bem que eu já estou pelos cabelos com esta tipa e me chama para irmos lá fora. Caneco...Mas quem é que trouxe esta carpideira dos copos ? Não há paciência para estas lamúrias...Nem me digas nada, ela é prima de um amigo meu e encontrou-me à saída do restaurante e colou-se a nós...e desatamos a rir...só a ele para acontecer uma destas...ou a mim. Qualquer um de nós é incapaz de virar as costas a alguém , mesmo quando não nos apetece nada estar ali...
E ele puxa de um cigarro e pergunta-me o que tenho...sei lá o que tenho, Nuno. Sei o que não tenho. Sei que ainda não sei as respostas todas, que ainda não decidi o que quero fazer da minha vida. Que viver neste limbo me mata. Que estou um bocado farta de tudo. E que, se calhar, até é bom acontecer isso. Porque assim, não tenho tanto a perder , quando me lembrar de mandar tudo às urtigas e me for embora. Porque vou. Só não sei é quando, que este processo do green card está a demorar horrores e eu para aqui farta de esperar. Se isto tivesse sido em Novembro, era tão fácil...aliás, quando estou nos Estados Unidos não há sequer dúvidas. O problema é voltar, é adaptar-me a esta vida...
E depois de me ouvir a mim a carpir esta angústia ( acho que aquela tipa me pegou a sua sarna) ele diz-me que tenho de aprender a ouvir a minha alma cigana. Whatever that means. Que se dane, vou mas é perguntar-lhe o que é que ele quer dizer com isso. E ele diz, aliás, explica-me com laranjas , a sua teoria...que só me entrego de alma e coração a tudo aquilo que faço, seja no trabalho, na família, nas amizades, para esconder o vazio de não me entregar de alma e coração a mim própria, aos meus desejos...Onde é que está a minha amiga que sonhava em ter uma vida diferente destes dias cinzentos de toda a gente? Aquele espírito livre que sonhava com uma vida tão diferente da do resto das pessoas? A amiga com quem me identifiquei desde o primeiro dia em que a conheci? Anda aí, enterrada em trabalho até às orelhas , para não se poder expressar, para não levantar ondas, para não estragar os planos a muita gente. É o que acontece, quando nos entregamos totalmente a quem amamos, criamos demasiadas expectativas e acabamos muitas vezes a anular-nos a nós próprios. Porque os outros acabam a depender de nós, mesmo quando não precisam de o fazer...
E eu a querer dizer-lhe que não é bem assim mas não encontro um meio de refutar a sua teoria sem parecer uma criança que se recusa a enfrentar a verdade por ser demasiado dura. E ele diz-me, não faz mal, minha linda. Tu és mesmo assim, faz parte da tua natureza procurares o caminho certo da maneira errada...Então olho para ele e pergunto-lhe em que é que ele difere de mim...E ele diz : Em nada!!!...olha para mim, era um rebelde, agora sou um auditor! E desatamos os 2 à gargalhada, bem alto, a soltar a alma...Os outros acham que já passámos da conta e nem sequer bebemos nada...Um dia destes, Nuno, um dia destes, fugimos os 2. Deixamos as nossas secretárias muito arrumadinhas, as pastas e os arquivos todos orientados e batemos a porta.
E se assim for, oxalá nos encontremos em algum caminho, errado ou não, desta vida. Porque irei sempre precisar dos teus abraços de urso, dos teus comentários desabridos sobre tudo e todos. E tu vais precisar sempre deste misto de voz da consciência e diabinho que te leva a re-pensar tudo o que fazes e sentes. E ambos vamos sentir a falta destas nossas conversas até ao nascer do sol...

No comments: